Perdão, meu rio, por tão fundas mágoas,
se hoje tens turva a face transparente...
É gente o insano que te suja as águas,
e eu sinto culpa, pois também sou gente.
Meu rio tão ferido, me perdoa
se hoje, ao passares, com tristeza afagas,
em vez da tosca e plácida canoa,
o frio corpo de metal das dragas...
Perdoa o lixo posto em tua margem:
restos de entulho... vidros... panos rotos...
Perdoa a lama que em teu leito espargem
as gigantescas bocas dos esgotos...
Perdão, se, ao te estreitar, tua corrente
meio aos detritos com vagar se move...
Perdoa, velho rio, pela enchente
que sem querer tu causas quando chove...
Por fim, perdoa, quando à multidão
dás água e peixe, embora ela te agrida...
Perdão! Mil vezes peço o teu perdão,
por dar-te a morte, enquanto dás... a vida!