Os sinos, conclamando os fiéis à catedral,
Ainda assustam os pombos do campanário.
Da vida, recebi muitos dons e bens em partilha,
Que me transformaram em verdadeiro milionário
E formei esse patrimônio de sonho e maravilha,
De que desfruto, no meu afã e meu labor diário.
Risos de criança, cantos de sabiá e de canário,
Versos e músicas, toda essa poesia em caudal,
Foram enchendo as prateleiras do meu armário,
Desses bens de valor pleno, tesouro universal.
E, embora toda a evolução, os sinos da catedral
Até hoje impressionam os pombos do campanário.
Teve, por certo, minha sorte, algum adversário:
Há sempre gente contra o bem, favorecendo o mal.
Mas a parte ruim foi sempre corredor retardatário,
E ao término de cada corrida, o de bom foi triunfal.
O Liceu, o Aquidaban, as Faculdades, e a ponte
O rio Itapemirim, o Itabira, a Ilha da Luz, celestial,
Estiveram, todo o tempo, clareando o horizonte
Como no pólo de minha vida uma aurora boreal.
É que apesar do correr dos anos, os sinos da catedral
Ainda fazem revoar os pombos do campanário.
Se o implacável tempo, desfiando a vida em sua roca
Transforma, insensível, as coisas de maneira tão fatal,
A meu tesouro de lembranças nem de leve sequer toca,
Porque a fonte que o alimenta é pura, doce e natural.
Mudaram as pessoas, encaneceram meus cabelos,
Passaram em relâmpagos, de maneira tão cabal,
Coisas e fatos. E num vídeo-tape, hoje, ao revê-los,
Percebo que a mudança foi apenas de ordem formal.
Se muita coisa se transforma, os sinos da catedral
Assustam, com seu toque, os pombos do campanário.
Se não há mais bar do Ercílio, piabinhas à beira-rio,
A Capitão Deslandes estreita, com trânsito infernal,
Existe ainda a malha forte e bem trançada, fio a fio,
Do meu Cachoeiro, princesa do sul, secreta capital.
Estão aí a praça, o banco, o sorriso e o bom-dia,
O ambiente contrastante – citadino e de arrabal,
A sessão das oito, a cadeira na calçada, toda a magia
Quem tem na antena do meu coração o seu canal.
Verifico que passa o tempo, mas os sinos da catedral
Espantam, a cada dobre, os pombos do campanário.
Se não há mais Rubem, outros cantores em harmonia
Tecem novos versos a esse lugar, tocante, sensacional,
E a cada conto, cada poema, vai se revelando a poesia
Que flui da alma, anta, e o retorno à lembrança é fatal:
Pode ser que a vida se esvaia, no próximo segundo,
Mas fica a herança, traduzida na pujança desse local,
A mostrar a toda gente, em qualquer lugar do mundo,
Que, realizando o vôo, retornam os pombos ao pombal.
E por mais que as coisas mudem, os sinos da catedral
Continuam espantando os pombos do campanário.
A beleza de Cachoeiro, dos meus sonhos doce abrigo
Haverá de permanecer eternizada e pura, na obra genial
De deus, que hei de ter no coração, aqui sempre comigo,
Na riqueza do tesouro, meu patrimônio histórico e cultural.
Se muito mudou, todo esse seu encanto ainda existe:
Meu Cachoeiro se renova, mas permanece, no ideal,
Nos guardados mais queridos, na lembrança que resiste
Em meus aurículos e ventrículos, meu cofre sentimental.
É que embora a vida vá fluindo, os sinos da catedral
Ainda colocam em susto os pombos do campanário.
Por mais que a evolução e o progresso a transmudem,
Jamais cairá sobre Cachoeiro a derradeira pá de cal,
Os que pensam assim erram, se equivocam, se iludem.
Porque esse rico tesouro de lembranças é imortal.
Pombos em revoada marcam a cada tarde o cenário
O encanto da juventude vê-se memória da velhice atual
E, quais sinos dobrando a vésperas no campanário,
Retornam, pombos, ao meu coração que é sua catedral.