ACADEMIA CACHOEIRENSE DE LETRAS
Crônicas Premiados

Athalídia Depes Bueno
1º LUGAR

Mofofô de Marathayses

             Verão de 1955...
             Chamava-se Maria. Maria não sei de quê. Só Maria. Mas, era chamada apenas de Mofofô. Com os seus 59 anos, ela era a figura mais conhecida e esperada naquela praiazinha de veraneio. A sua aparição atrás da estaçãozinha pequena e cheia de charme era um acontecimento que fazia a garotada vibrar de alegria, quando ela surgia inesperadamente, causando o maior tumulto nos veranistas desavisados e nos moradores dos barracos próximos, que tão bem conheciam Maria.
             E ela aparecia sempre ao cair da tarde, quando o vento bravo vinha substituir aquela temperatura quente de verão. Tranqüila, ela entrava triunfalmente a passinhos miúdos, descendo pelos trilhos do trem que cortava até lá embaixo a única ruazinha da cidade. A molecada, a garotada da redondeza em férias, corria ansiosa atrás de Mofofô, xingando, gritando e dizendo gracinhas a Maria, que fingia não ouvir. E eu também quis saber coisas de seu passado, de seu presente e de sua vida. Não me lembro bem, mas talvez tenha sido com ela, a minha primeira, inesquecível e mais importante entrevista jornalística entre as muitas que já fiz por esse mundo afora.
             Quando todos se acalmavam, Mofofô sentava sobre uma pedra áspera e quente pelo calor do verão e ia me respondendo, ora calma e serena, ora agressiva e impulsiva, com a sua voz muito rouca, o que eu – numa curiosidade incontida – sofregamente ficava a lhe perguntar. Eu perguntava coisas que mexiam com a dor de seu passado. E ela, perdida em recordações doloridas, ficava a olhar um ponto perdido além do horizonte, buscando e rebuscando no tempo de sua imaginação um barco que partira e nunca mais voltara.
             ... Era um passado triste o passado de Mofofô. Era um presente amargo, cheio de revoltas incontidas vividas contra o tempo, que ela, com aquela voz alta em contraste com a sua figura franzina, aqueles trajes coloridos e aquele rosto audaciosamente pintado, revivia dolorosamente. Maria não sei de quê, só Mofofô, era a figura mais aguardada e conhecida ao cair da tarde. “Minha vida? Você quer mesmo saber das dores de minha vida?”, perguntava ela, quase sussurrando. “Ah, a minha vida... não me lembro de quase nada, só de um amor grande e sofrido que o tempo se encarregou de destruir impiedosamente. Amei e sofri tanto que nem me lembro de meu outro nome, o meu sobrenome, a gente não tem?” perguntava ela curiosa, “outro nome depois do nome? Nunca tive pais e não sei nem onde eu nasci. Talvez aqui nestas areias finas e brancas, talvez naquele barraco sem teto de onde nunca saí. Fui bonita sim. Muito bonita mesmo, afirmava ela tristemente. Cresci e vivi entre a fúria do mar, as tardes frias de inverno entre as tempestades de vento, as noites de lua cheia, entre a única escolha que eu tive na vida: a fome ou o amor. Na disputa de meu corpo e de meu amor, aquele pescador que eu tanto amei e passei a vida inteira esperando, nunca mais voltou.”
             Foi embora, lá pra trás do horizonte, depois do arco-íris, e eu passei os dias e as noites ali, sentada naquela pedra grande atrás da igrejinha. Ficava lá conversando com as ondas, conversando com as estrelas, vendo a lua sair e o sol morrer, chamando e gritando para o meu amor voltar. Ele não me ouviu, talvez pelos barulhos das ondas, dos sussurros dos ventos.” – divagava Maria, com os olhos marejados de lágrimas e de saudades...
             E Maria. Maria sem sobrenome, só Mofofô, quase não sorria. A vi ainda alguns verões mais tarde. Depois ela não mais voltou, aparecendo atrás da estaçãozinha, descendo pelos trilhos do trem ao cair da tarde. Soube mais tarde por um pescador, que ela morrera na pedra grande, ao lado da Igrejinha branca, conversando com as ondas, conversando com as estrelas, vendo a lua sair e o sol morrer.
             Mofofô de minha infância, de minha primeira e inesquecível entrevista. Morreu louca de saudades, morreu de amor e que eu, ainda quando me lembro dela, numa revivência suave, volto a ser a menina que corria nua com os seus cabelos soltos pelas praias desertas de Marathayzis montada em seu cavalo em pêlo e que ainda não consegue, apesar do tempo, colocar roupa e arreios em seus sonhos, em suas fantasias...
            

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