ACADEMIA CACHOEIRENSE DE LETRAS
Crônicas Premiados

Sérgio Bernardo
2º LUGAR

Resoluções

             Marlene olhou a rua e pensou em desistir de sair. De um lado, depois do outro. Não viera o táxi. E chovia. E estava com dor de cabeça. E faltavam dez minutos para o banco fechar. Já o perdera, claro.
             Capuz da capa de chuva ajeitado no alto da cabeça, que sombrinhas desistira de comprar porque as perdia sempre, decidiu ir. Poderia ainda fazer uma comprinha ou outra de última hora. Poderia passar na casa da irmã e saber se tinha como lhe pagar os 500 daquele empréstimo. Poderia ainda dar uma ida à manicure e marcar horário para sábado; conferir o resultado da aposta na lotérica de costume; ir à biblioteca; sentar-se no banco da praça; postar uma carta que escreveria no balcão do correio mesmo; poderia até beijar o primeiro homem de camisa azul que passasse na sua frente. Sabia lá... Tantas e tantas possibilidades. E era livre para escolher.
             Marlene caminhava com pressa, apesar do horário do banco completamente perdido. Tinha pressa de chegar onde nem sequer tinha idéia. Mas precisava ir. Precisava ir e chegar pontualmente. Via as pessoas que imitavam sua pressa, também todas com hora marcada. Para o trabalho? Para prestar contas ao patrão? Para servir de capacho a alguém? Para romper o namoro? Para amar? Para chorar? Para morrer?
             Eram tantas dúvidas em redemoinho na cabeça de Marlene, que a dor parecia querer estourar seus miolos. A dor alfinetava-lhe a fronte, a nuca, talvez todo o cérebro. Era uma dor enfim que parecia vir de outro lugar, com raízes mais profundas. Uma dor que vinha da alma – isso! – do fundo da alma para lhe arrebentar a cabeça. Feito um martelo. Numa bigorna frágil. A sua cabeça.
             Marlene resolveu lembrar o que tinha feito de bom nos últimos cinco domingos. Queria achar uma distração para a dor que crescia, uma válvula de escape para impedir que pensamentos indesejáveis viessem. Então deu liberdade à memória.
             No domingo número um tinha feito pavê de biscoitinhos champagne, uma receita aprendida com aquela cozinheira famosa que já morreu. Mas estava gorda, muito além do peso ideal, e então lembrar o pavê não era bom. Era péssimo até. Por que o trouxera àquela tarde chuvosa, em que andava sem rumo, podendo ir parar numa loja de doces? Insensatez.
             Pulou para o domingo dois. Vira na tevê uma cachorrinha que adotara uma ninhada órfã de gatinhos, um amor, uma solidariedade de cortar o coração. Então lembrou de estalo da notícia seguinte, de uma mãe que enterrara seu recém-nascido num quintal qualquer, e aquela também era uma péssima lembrança. Certo que não gostava de cães, nem de gatos, nem de bebês. Porém odiava o abandono, a vileza da alma humana. Não era uma lembrança boa. Era mesmo a pior que poderia ter.
             Marlene resolveu esquecer o que tinha feito de bom nos últimos cinco domingos. O que tinha feito nos últimos cinco anos. O que tinha feito de mau em toda a sua vida.
             Resolveu também que iria a algum lugar. Fosse onde fosse. A um shopping center, uma barraquinha de sorvete, um cemitério. À casa da irmã! E lá diria que a dívida não existia mais, que os 500 emprestados naquele momento de sufoco tinham sido o maior investimento de sua vida. Poderia mesmo beijar o primeiro homem de camisa de qualquer cor que lhe passasse à frente, ou ao lado, ou às costas... ou até voando sobre sua cabeça.
             E a maior de todas as resoluções: resolveu que a dor que tinha na alma era natural, era sua, dava-lhe algum motivo para estar sempre na tentativa de criar em sua existência um espasmo de gozo tão grande que a levasse a sentir-se flutuando em nuvens brancas. Resolveu abaixar o capuz da capa e deixar que os pingos da chuva escorressem pela rugas do seu rosto como córregos nas fissuras do solo. Para limpar restos de maquiagem, e também sobras de prantos que lhe tinham ficado presas à pele desde a primeira lágrima do parto.
            

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