ACADEMIA CACHOEIRENSE DE LETRAS
Crônicas Premiados

Neusa Maria Jordem Almança Possatti
MENÇÃO HONROSA

A outra

             Sentada diante do computador, com a sensibilidade à flor da pele, tento colocar em ordem minhas emoções. Sinto-me sozinha, estando necessariamente solitária. As crianças foram dormir, meu marido assiste ao futebol pela TV e eu no silêncio da noite tenho a sensação de vida vivida pela metade, uma ansiedade em realizar as coisas que passam por mim, consumida pelo dia-a-dia em minha casa, numa vontade louca, secretamente espero que algo aconteça, me sacuda e como um rojão de luz, ilumine o caminho. Estou sendo vítima neste momento, às onze da noite, de um ataque de tristeza sem fim, que me aperta o peito. Minha tristeza tem raízes na alma, um mal que não pode ser diagnosticado em nenhum hospital.
             Nesses maus momentos, que parecem eternos, amadureço. Conquisto uma certa humildade para aceitar outras fases difíceis em minha vida e saio fortalecida, com fôlego novo. Eu acho que para aprender com o sofrimento é necessário encará-lo de frente procurando descobrir como foi causado e como age dentro de nós.
             Quero mudar o jeito de olhar para mim mesma, de me ouvir e prestar atenção neste novo sentimento, essa coisa doce e dolorosa que vejo nascer em mim: o desejo de ser a outra.
             Amigos solteiros costumam perturbar os outros quando perdem o sono de manhã, ou em altas horas da noite.
             A outra em mim é sonhadora e independente, sim. Sonha em ser amada, em ter uma vida palpitante, em particular em ser alguém. A idéia da independência que assusta é a mesma que embriaga de prazer, porque haja o que houver, eu saberei que posso contar comigo. Mesmo.
             Venho concedendo a vida inteira. Concedi a mão em casamento, concedo danças, finjo permitir aquilo que de qualquer forma, me será tomado. Submissa, me faço passar por generosa. Mas me pergunto às vezes até que ponto ceder não é um gesto de covardia. Calo-me sabendo que devo lutar por plenitude, que esse é meu direito.
             Irritantemente determinada, extremamente vaidosa, boto uma calça comprida, visto a blusa. Olho no espelho e percebo que não combinam. Talvez quem sabe, uma saia. Mudo tudo outra vez, tento um vestido justo e não satisfeita dou o veredicto: horrorosa! Rumo para uma boutique disposta a comprar apenas uma blusa ou uma saia, uma coisa nova para dar uma modificada na aparência.
             Ansiosa como estava de ficar bonita, comprei sandália, cinto, bolsa, saia e blusa. Enfim, mudei o visual. O espelho confidente segredou que eu estava ótima.
             Queria que vissem uma mulher ousada, avançada no tempo, descontraída, moderna na maneira de andar, na maneira de expressar e na forma muito particular de apresentar uma roupa, sem abrir mão do meu próprio brilho. Ser elegante sem esforço, pensar e fazer pensar, competitiva sem animosidade, alegre sem estardalhaço. Roupa evidentemente não é tudo, mas eu sinto que quero dizer algo mudando minha maneira de vestir. A outra veste-se de acordo com o que lhe vai na alma e estar bem consigo mesma é a melhor maneira de causar boa impressão.
             A mulher que vejo no espelho se mostra competente, responsável e sedutora. A mulher escritora que sabe possuir algo mais, saberá expressar amores, paixões ou desencantos. Ela quer se destacar pela firmeza, mas também pela personalidade. Projetar-se naquilo que fizer, mas conservando a feminilidade.
             Sei que manter a individualidade é importante e que o respeito é algo bem maior e mais profundo do que a simples delicadeza das palavras. Não é preciso ser obediente para ser bem-educada, é preciso antes de tudo ser ponderada.
             A outra mulher, a que nasce em mim, não se vê casada com alguém que dê palpites sobre o CD que quer comprar e coloca hoje uma lista maior de exigências antes de continuar compartilhando a pasta de dentes com o marido: elegância, sensibilidade, que divida as tarefas domésticas, saiba onde é o tal ponto G, que goste de discutir a relação... convém admitir que não será fácil para ele. Ah! Sem esquecer a amizade, o casamento entre duas pessoas que também são amigas costuma ter duração maior. Ninguém consegue passar muito tempo convivendo trinta dias por mês, doze meses por ano, com quem não compartilha dos mesmos interesses, hábitos e valores. Tem que conversar sobre dúvidas e problemas, trocar idéias sobre assuntos que estão no jornal, comentar livros e filmes e jamais ter o outro como uma conquista definitiva. Na verdade quero conquistar e ser conquistada a cada dia.
             A outra, a que estou construindo, seria então aquela que tinha preconceitos e não tem mais. Não se incomodará em ser se isso lhe der prazer. Livre para por fim aos complexos de culpa e apresentar-se aberta para o sexo e para o amor. Quero ser uma magnífica amante e se ainda não cheguei lá sei que posso, que é apenas uma questão de aprimoramento. É só preciso que preste atenção aos meus desejos e deixe aflorar minha sensualidade.
             A melhor estação pode ser aquela onde ainda não chegamos. Sou uma jovem senhora, sei disso. Seria inimaginável me ouvir falar com tanto entusiasmo, sem uma ponta de dissimulação, sobre a chegada à idade madura. Com a saúde em dia, o corpo em forma e profissionalmente realizada, tenho projetos de vida em todos os sentidos. Estou viva e isso inclui o sexo também. Mulher quarentona esbanjo sensualidade e ardor. Cuidadosamente vou empurrando a velhice com a bem malhada barriguinha.
             A outra poderá ser intolerante com o jeitão do meu marido de sempre agir como se soubesse de tudo, especialmente quando não sabe. Reclamar, não ser perfeita. Melhor, assim terei me livrado do estigma da perfeição.
             Estou ótima, me olho no espelho e vejo a outra, experimentando um novo penteado, me acho bonita, abro um sorriso e vou em frente.

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