Quando menininha, eu a levava nos braços para a praça do Derby, onde ela brincava no escorrego, nos balanços, ou corria, sempre comigo próximo, cuidadoso.
Dava-lhe algodão-doce, pipocas, picolés, e recebendo, ela séria fitava-me, com os olhos grandes, negros. Como pai, eu sorria, feliz.
- Cuidado para não se sujar, filhinha.
A tarde logo passava, e outra vez conduzindo-a nos braços, eu entrava no ônibus. Ao sentar-me, ela cochilava, com o rosto sobre o meu ombro.
Ao balanço do coletivo, adormecia. De encontro ao coração, sentia o corpinho macio e terno, beijava-lhe os cabelos finos, aloirados. E, no próximo domingo, com ela, retornaria à praça.
Já adolescente, uma tarde estávamos no portão da casa, quando vi o rapaz grande, forte, aproximando-se.
Então, meio encabulada, ela disse:
- Papai: aquele é o Ricardo...
Pela fisionomia mais serena, pelo brilho mais cintilante nos olhos negros, entendi, e devagar, sem comentário, ausentei-me.
Na sala, sentado no sofá, fiquei pensando. Minha filha tornara-se moça, estava namorando...
- Assim é a vida.
Falei, procurando aquietar o espírito.
Depois, na igreja, percebia-a de branco, mais esguia, os cabelos longos, o rosto sorridente, os gestos alegres. Casara-se.
Disfarçando, busquei o lenço no bolso do paletó, e fingindo retirar um cisco no olho, passeio-o nesse, escondendo-me.
Como ela assemelhava-se à sua mãe: o mesmo físico, a voz, os gestos irrequietos, o modo de fitar. O encanto que desprendia!
- A vida se repete nos filhos.
Novamente murmurei, no hábito recente de falar sozinho.
O tempo passou. E hoje, ela surge com o filho nos braços, e o marido, que está gordo, ficando calvo.
- É o seu neto, papai.
O rostinho moreno, sereno, com os olhos grandes, negros, parecido com ela. Emocionado, sorrio, sem palavras.
- Segure ele, papai.
As mãos tremem, o coração dispara, o olho mais uma vez incomoda... E, pela Segunda vez em minha existência, seguro o novo corpinho morno.
O rapaz grande chega-se, e sorrindo:
- A gente acha o João parecido com o senhor.
Prossigo analisando-o. Não, ele parece-me com a avó, com a mão. De mim, herdou o sangue. E Deus permita que, futuramente, ao enfrentar a vida, obtenha mais sorte. Torne-se um vencedor. Ao contrário do...
- Papai, vamos indo.
A filha desperta-me ao presente.
Devolvo-lhe então o filho, que é recebido num aconchego que somente as mães sabem dar, pelos braços compridos.
- Ainda é cedo...
- Nada, papai. Temos que comprar umas coisas, no comércio.
Apressada, beija-me a face, e aperto a mão do seu marido, no cumprimento da despedida.
- Apareçam.
- Sim, papai, vamos aparecer.
- Tchau, seu Saulo.
Saem. No terracinho, fico vendo-os descendo a rua, para desaparecerem ao dobrar a esquina adiante.
De repente, sinto uma coisa, um vazio no peito... Nervoso, entro, e no quarto, abrindo as gavetas do guarda-roupas, procuro o lenço.
Ah, parece-me ter sido ontem, que a levava ao parque, conduzia-a adormecida nos braços, percebia-a crescer, tornar-se adolescente, depois se casar... Agora, é mãe. Meu neto, minha continuação.
Ante as reflexões, como sempre emotivo, sento-me à cama próxima, e com o lenço encontrado, passo-o no rosto, que queima de sentimento.
Sem tardar, fecho a porta, e pensativo, ganho a rua estreita. Descendo-a, evito que com maior intensidade a solidão me maltrate.
- Tudo bem, seu Saulo?
Indaga-me o vizinho, que sobe a rua.
Cabisbaixo, respondo:
- Tudo bem, Cláudio.
O homem passa, e logo enfrento a avenida, reentregado ao mundo prático.
No céu azul, o sol brilha com maior luminosidade.
- Essa nossa vida...