ACADEMIA CACHOEIRENSE DE LETRAS
Crônicas Premiados

Pedro Teixeira
MENÇÃO HONROSA

Voando de volta para casa

             Amanhecia um dia de março de 1985. Eu estava no terraço do Aeroporto Internacional do Galeão, de onde, ao longe e bem à esquerda, se viam as dependências do quartel da Força Aérea Brasileira. Estava a caminho de minha terra natal, onde pretendia voltar a morar e viver. O ruído dos aviões que subiam e desciam, quase que ao mesmo tempo, podiam confundir os meus ouvidos, mas não minha memória. Lá estava a velha base aérea, tinha certeza, apesar de pouca visibilidade e da minha vista se embaralhando no brilho do sol que batia no asfalto da pista. Como uma enganosa miragem, dava para vê-la como há 30 anos atrás, no dia em que atravessei a ponte da Ilha do Governador e me apresentei ao comando do Corpo de Voluntários. Tinha pouco mais de 17 anos e a cabeça cheia dos sonhos que só a juventude se dá ao luxo de ter.
             Olhar naquela direção era como mergulhar em um caleidoscópio, um brinquedo que certa vez apresentei na aula de trabalhos manuais, copiado de uma revista qualquer. Quanto mais girava, mais as pedrinhas coloridas formavam novos desenhos geométricos, cada vez mais exóticos e estranhos. E quanto mais eu forçava a vista, para esquadrinhar em minhas lembranças o velho quartel da FAB, mais eu confundia as imagens, que iam e vinham como fantasmas ressuscitados. Em todo aquele tempo, não restou quase nada que me lembrasse de suas velhas dependências. Nem os hangares, onde no silêncio da noite, como velhos guerreiros no repouso de batalhas, dormiam aviões avariados, comprados dos despojos da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coréia.
             Em minhas lembranças, apesar dos anos que me separavam daqueles tempos, ainda estavam gravadas a fogo num compartimento de meu inconsciente, que teimava em não se apagar. Rostos vinham à tona de minhas memórias, como silhuetas irreconhecíveis de pessoas de quem já não me lembrava mais. Apenas silhuetas, perambulando pelos hangares desertos e pelo cemitério de aviões abandonados no final da pequena pista. Não sei por que quis rever o quartel onde comecei minha carreira militar na aeronáutica, nos anos 50. Um amigo daquela época me alertara de que não ia encontrar mais nada de que valesse a pena recordar. Mas eu precisava meditar um pouco a respeito da decisão que acabara de tomar. Depois seguir viagem para minha cidade, ponto final de minha peregrinação compromissada apenas com a nostalgia.
             Queria exorcizar primeiro, todo aquele tempo de vida e tentar entender, rastro atrás, algumas outras pendengas que me foram embaralhadas na idéia. Alguma coisa me dizia que o ovo da serpente, de tudo que me angustiava, estava escondido em velhos armários de meu inconsciente, e que eu tinha de achá-lo para desatar esse nó. Só precisava de mais algum esforço, ida e volta no passado, no meio do redemoinho onde a vida brinca com as pessoas, para que elas se reencontrem e encontrem seus caminhos. Existe uma hora em que elas têm de arrancar todo o ranço que carregam, soltar a pele ressecada do passado e fluir redivivo em uma nova etapa.
             Queria descosturar a roupa velha de minha vida, fio a fio, sem pressa nem atropelos, e resolvera começar pelo Galeão. Depois, quem sabe, me reencontrar e reconstruir o que havia desfeito e desatado pelo mundo afora. Fiz bem em seguir o conselho do amigo e não ter entrado na velha base em busca de vestígios daquele passado tão distante. As novas dependências tinham sido construídas em outros locais e as antigas, na maior parte, estavam em ruínas, como velhos cemitérios abandonados. Se fosse, pisaria apenas em escombros sem vida e adormecidos pelo abandono. A velha cantina do “Pato Rôco”, território livre dentro da organização militar da base aérea, na certa já não existiria no caminho que levava ao corpo de bombeiros. E aquela rouquidão que lhe dera o apelido, com toda certeza já o consumira. Só me restava agora ir embora, no rumo do meu futuro e em busca do meu passado.
             Foi uma longa viagem, interior adentro e solidão afora, relembrando de novo as imagens de meu velho quartel, agora sem ter seus escombros como pano de fundo. Por entre as montanhas que margeiam a BR-101, eu via apenas aquelas que guardei na memória. Em meu primeiro livro, por puro egoísmo, não falo dela em minhas lembranças. Como essas coisas que a gente guarda e não mostra para ninguém. Coisas íntimas que só à gente interessa. Agora não, queria que ele fosse o contraponto, a fronteira entre o passado de minha juventude, e o presente de minha vida adulta. Se expus minhas mazelas da infância no primeiro livro, queria agora expô-las de novo nesse outro. Mesmo que não pretendesse publicá-las de imediato, pelo menos elas ficariam aprisionadas, reféns de minha vontade e de meus caprichos.
             E voei para casa, para minha terra natal. Não mais pelas asas mecanizadas de uma aeronave, mas pelas asas suaves da imaginação, em busca do tempo perdido e aprisionado na infância distante, onde o vento faz a curva nas lembranças da gente. Precisava recosturar os remendos que fui deixando pela vida afora. Precisava esquecer tudo e renascer em uma nova existência. Era bom planar sobre os campos verdes de minha juventude e aterrissar em paz no solo que me viu nascer e de onde sai contra a minha vontade, mas em busca do meu destino. Era bom voltar para casa.

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