ACADEMIA CACHOEIRENSE DE LETRAS
Crônicas Premiados

José Marcelo Grillo
MENÇÃO HONROSA

Curvas do pensar

             Gosto de estar aqui sozinho, andando sem rumo. Existem muitos lugares bonitos ao redor do Patrimônio, que é um vale cercado de altas montanhas, geralmente de difícil acesso. É bonito daquela beleza que mexe com os pensamentos. Mas resolvi estar em paz, hoje.
             Não há pressa por aqui. Aliás, daqui de cima tudo pequeno – até os problemas da vida. Daqui de cima a gente pode minimizar tudo. Não há pressa para nada; o tempo parece parado, esperando que a gente o movimente. Se nos aquietamos, nada se move. É o lugarzinho ideal para se morar, esquecendo tudo o mais que existe.
             Olhando daqui é tudo tão diminuto... Só uma coisa aumenta: a saudade. È engraçado eu falar em saudade. Saudade de quê? Apenas de um meio-olhar, de uma meia-palavra, de um meio-toque...? É saudade de tudo. Da vida. Dela. Ela é a vida.
             Subi essas montanhas pensando Nela, para variar. E continuo pensando, para continuar variando. E vou continuar pensando, se me permitirem. Daqui de cima vejo o Patrimônio lá em baixo.
             Penso.
             Mas agora já é tarde. O sol está se pondo atrás da montanha à esquerda e logo será noite. Tenho que ir-me agora, pois o sol já vai sumindo. A descida à noite é muito perigosa. São muitas as curvas dessa estrada até chegar ao Patrimônio. Ela vai serpenteando lá embaixo: some aqui e daí a pouco reaparece ali, para logo em seguida tornar a sumir. Daqui a pouco estarei desaparecendo e tornando a aparecer nessas curvas.
             Lembro Fernando Pessoa: A morte é a curva da estrada...
             Ela está lá, atrás dessas curvas. E é como se estivesse morta para mim. Se não posso vê-la, é como se você não existisse, não vivesse. Estamos mortos em vida, eu para Ela, Ela para mim. Eis a morte em vida.
             A pior morte é a morte em vida, o vazio. Nascer, conhecer pessoas, nos afeiçoar... Depois, de uma hora para outra, a curva da estrada, o desaparecer, o não ser mais visto. Do nada para o nada. No fundo, todos nós já nascemos com a certeza do que há depois da curva da estrada: o vazio, o nada.
             A mim, a curva da estrada assusta. Mas não é pela morte em si mesma: é pelo não ser mais visto, é pelo que ela nos tira. Ela leva embora a amizade, o amor, a sabedoria, a experiência, as dores e as alegrias; e leva também momentos que não chegaram a existir; leva tudo o que poderia ser feito e não foi possível, porque não houvera tempo. A curva na estrada nos tira as lembranças vivas, deixando só o pensamento do que poderia ter sido.
             Mas quantas vezes eu a “matei”! E quantas vezes Ela ressuscitou! Às curvas da estrada contrapõem-se as do pensamento. E as curvas do pensamento são tantas, tantas... Quem vai, volta. Basta querer. Basta a gente querer. É só fazer a curva e reaparecer. A toda hora Ela me reaparece nas curvas do meu pensamento. Tantas vezes Ela já estava lá no fim da estrada e fez meia-volta. E tantas vezes eu sumi na curva, sem morrer. Não, não basta sumir na estrada. Isso não torna a viagem menos pior, não faz a dor ser menor, não faz a gente ser melhor; enfim, não muda nossa vida. Não, a curva da estrada não é a morte. Deixar de ser visto não é estar morto. Mesmo morrer não significa não ser visto. Ela sumia na curva mas eu ficava escutando-a, escutando suas passadas (elas “toavam que retumbavam” em meus ouvidos). Não adianta sumir. O que os olhos não mais vêem, o coração ainda continua a sentir. A saudade não desaparece, não se esconde nas curvas. A saudade é uma reta sem fim. Eu vou seguir reto. Andando e vivendo. Caminhando nessa estrada e vivendo mais e mais intensamente. Espero chegar um dia ao final dessa reta, dessa estrada. Espero um dia chegar à curva definitiva, se ela existe, aquela além da qual não há volta. Mas também vou seguir pela estrada do pensamento, cheio de curvas que vão e voltam.
             O trenzinho da minha vida segue resfolegando, quase parando, por esse estrada sinuosa, carregando minha esperança. E a esperança não morre nunca. À cada baldeação, à cada estação, à cada parada carrego ou descarrego um pouco das esperanças; mas acabar, acabar, elas não acabam. Levo-as para lá e para cá, repetindo estradas, curvando as mesmas curvas, passando e repassando no mesmo ponto, até que chegue à estação final. Esse é meu destino.
             É esse querer e não querer, essa vontade de ficar e partir, esse medo e desejo... são essas as curvas do pensamento.
             (Deixo-a deslizar nessas curvas virtuais à vontade. Que aproveite bem. Porque se algum dia, se algum dia. Ela pisar na minha estrada real, dela não sairá nunca mais. Acabarei com as curvas, farei um círculo, uma pista oval, e Ela estará presa para sempre. Eu estarei no centro, e Ela nunca mais sumirá das minhas vistas.)

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