ACADEMIA CACHOEIRENSE DE LETRAS
Crônicas Premiados

José Marcelo Grillo
MENÇÃO HONROSA

Abismo

             Ao longo da vida amorosa as figuras surgem na cabeça do homem apaixonado sem nenhuma ordem, sem seqüência lógica, aleatoriamente, porque dependem cada vez de um acaso, tanto interior quanto exterior: elas surgem do imaginário.
             Minhas figuras amorosas surgem da mesma maneira que os traços deixados na areia pelas ondas ao se findarem na praia. Uma onda sobrevém à outra e apaga, totalmente ou apenas em parte (dependendo se a maré está subindo ou baixando), o que a anterior desenhou, sobrepondo-se à realidade imediatamente anterior. O que estava escrito pode ser totalmente apagado, e uma nova inscrição pode ser feita, e ela pode ser totalmente igual ou diferente ao que estava ali escrito.
             As figuras amorosas são como as ondas do mar: enquanto uma se quebra na praia outras mil estão se formando no mar alto da paixão: não são iguais e não têm durabilidade; se repetem e duram para sempre. São como ondas que se quebram na praia depois da rebentação: tão iguais e tão diferentes (na ressaca são mais diferentes e mais iguais ainda). Por isso são eternas, por isso são bobas.
             O amor e tudo que ele carrega consigo, o bem e o mal, fica diferente em cada pessoa que ele toca. O amor fica bem para certas pessoas e mal em outras. Em mim, não sei como fica: ora me faz ficar bem; ora, mal.
             Tudo está cheio até à borda e tudo é igual. Uma só gota pode fazer transbordar o copo, mas a lâmina d’água parece serena. Nada faz prever a tragédia eventualmente prestes a acontecer.
             Conforme meu desejo, às vezes sinto mágoa ou felicidade; em curto espaço de tempo, ínfimo, passo de uma à outra.
             Por mágoa ou por felicidade, sinto às vezes vontade de me abismar.
             E quando eu me abismo, sei que isso ocorre porque não encontro lugar para mim em parte alguma – nem na morte. É porque a imagem da qual eu vivia esvaneceu-se. E eu, também esvanecido, não me recolho a nada, a lugar algum. Não há mais a quem dizer alguma coisa. Estou abismado, então.
             Eu me abismo mais quando vem a mágoa (nada a ver com estar magoado com você; é comigo mesmo que eu me magôo). Nessas horas parece que suporto o mundo sobre meus ombros. É um tempo inútil, porque o amor resultou inútil. E meus olhos não choram, porque meu coração está exaurido, seco, mumificado.
             E se eu me abismo, forma-se em mim um grande canyon. Parto-me em dois, uma profunda, longa e tortuosa fenda separando minhas duas metades. E a mão esquerda já não alcança mais a direita; nem sequer sabe o que ela faz; nem a vê. Cada hemisfério do meu cérebro já não se comunica mais com o outro. O coração dissocia-se da mente; esta manda uma ordem e aquele não obedece. O sangue rompe-me as veias e deambula pelo corpo, não mais o alimentando. Os axônios e os dendritos se pocam, os neurônios se desconectam, e os nervos se rebelam; eles traem minhas ordens e meu corpo vira um espasmo só: desligam-se em mim o raciocínio, a memória e as emoções (viro um morto-vivo: nada penso, nada lembro, nada sinto). Os músculos perdem suas forças, atrofiados. Foge-me a vontade, sobrevém o cansaço, faltam-me as forças, escapa-me o pensamento. O que deveria alimentar-me transforma-se todo em venoso e espalha-se pelo corpo, intoxicando-o, levando a cada célula o fogo, o ardor, a dor, o vírus letal que me contamina a alma. Minh’alma transcende, torna-se grande demais para meu invólucro físico e me abandona, não encontrando mais guarida dentro de mim. E tudo em mim clama por Ela, e Ela não vem, e aí me abismo mais ainda e me desvaneço.
             Minha alma paira sobre meu corpo e sente pena dele. Pobre corpo sem vida. Que é do meu corpo sem minh’alma? Penso que Ela deveria devolver-me a alma. Ela é minha Alma.
             Assim como a névoa matutina se esvai aos poucos com a chegada do sol, assim como as chuvas de inverno acompanham o cair da tarde, assim eu também vou-me recolhendo, desaparecendo quando me abismo e penso Nela; e sobra somente a tormenta, o negrume, o abismo total em mim. Meu abismo é Ela.
             Eu me abismo é com Ela. Não que Ela seja meu abismo: eu é que me abismo com Ela, sem que Ela sequer saiba o que se passa comigo.
             E é assim que me abismo por Ela: todo, por completo.
             É outono, e estou abismado.
             E enquanto este outono não derriça todas as folhas do mundo e o inverno não chega trazendo novas esperanças, enquanto o infinito não se torna finito, enquanto o amor não passa, enquanto persiste o frio d’alma, enquanto a vida me mantém prisioneiro, enquanto Ela não vem, enquanto isso... que fazer do abismo?

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