Ao longo da vida amorosa as figuras surgem na cabeça do homem apaixonado sem nenhuma ordem, sem seqüência lógica, aleatoriamente, porque dependem cada vez de um acaso, tanto interior quanto exterior: elas surgem do imaginário.
Minhas figuras amorosas surgem da mesma maneira que os traços deixados na areia pelas ondas ao se findarem na praia. Uma onda sobrevém à outra e apaga, totalmente ou apenas em parte (dependendo se a maré está subindo ou baixando), o que a anterior desenhou, sobrepondo-se à realidade imediatamente anterior. O que estava escrito pode ser totalmente apagado, e uma nova inscrição pode ser feita, e ela pode ser totalmente igual ou diferente ao que estava ali escrito.
As figuras amorosas são como as ondas do mar: enquanto uma se quebra na praia outras mil estão se formando no mar alto da paixão: não são iguais e não têm durabilidade; se repetem e duram para sempre. São como ondas que se quebram na praia depois da rebentação: tão iguais e tão diferentes (na ressaca são mais diferentes e mais iguais ainda). Por isso são eternas, por isso são bobas.
O amor e tudo que ele carrega consigo, o bem e o mal, fica diferente em cada pessoa que ele toca. O amor fica bem para certas pessoas e mal em outras. Em mim, não sei como fica: ora me faz ficar bem; ora, mal.
Tudo está cheio até à borda e tudo é igual. Uma só gota pode fazer transbordar o copo, mas a lâmina d’água parece serena. Nada faz prever a tragédia eventualmente prestes a acontecer.
Conforme meu desejo, às vezes sinto mágoa ou felicidade; em curto espaço de tempo, ínfimo, passo de uma à outra.
Por mágoa ou por felicidade, sinto às vezes vontade de me abismar.
E quando eu me abismo, sei que isso ocorre porque não encontro lugar para mim em parte alguma – nem na morte. É porque a imagem da qual eu vivia esvaneceu-se. E eu, também esvanecido, não me recolho a nada, a lugar algum. Não há mais a quem dizer alguma coisa. Estou abismado, então.
Eu me abismo mais quando vem a mágoa (nada a ver com estar magoado com você; é comigo mesmo que eu me magôo). Nessas horas parece que suporto o mundo sobre meus ombros. É um tempo inútil, porque o amor resultou inútil. E meus olhos não choram, porque meu coração está exaurido, seco, mumificado.
E se eu me abismo, forma-se em mim um grande canyon. Parto-me em dois, uma profunda, longa e tortuosa fenda separando minhas duas metades. E a mão esquerda já não alcança mais a direita; nem sequer sabe o que ela faz; nem a vê. Cada hemisfério do meu cérebro já não se comunica mais com o outro. O coração dissocia-se da mente; esta manda uma ordem e aquele não obedece. O sangue rompe-me as veias e deambula pelo corpo, não mais o alimentando. Os axônios e os dendritos se pocam, os neurônios se desconectam, e os nervos se rebelam; eles traem minhas ordens e meu corpo vira um espasmo só: desligam-se em mim o raciocínio, a memória e as emoções (viro um morto-vivo: nada penso, nada lembro, nada sinto). Os músculos perdem suas forças, atrofiados. Foge-me a vontade, sobrevém o cansaço, faltam-me as forças, escapa-me o pensamento. O que deveria alimentar-me transforma-se todo em venoso e espalha-se pelo corpo, intoxicando-o, levando a cada célula o fogo, o ardor, a dor, o vírus letal que me contamina a alma. Minh’alma transcende, torna-se grande demais para meu invólucro físico e me abandona, não encontrando mais guarida dentro de mim. E tudo em mim clama por Ela, e Ela não vem, e aí me abismo mais ainda e me desvaneço.
Minha alma paira sobre meu corpo e sente pena dele. Pobre corpo sem vida. Que é do meu corpo sem minh’alma? Penso que Ela deveria devolver-me a alma. Ela é minha Alma.
Assim como a névoa matutina se esvai aos poucos com a chegada do sol, assim como as chuvas de inverno acompanham o cair da tarde, assim eu também vou-me recolhendo, desaparecendo quando me abismo e penso Nela; e sobra somente a tormenta, o negrume, o abismo total em mim. Meu abismo é Ela.
Eu me abismo é com Ela. Não que Ela seja meu abismo: eu é que me abismo com Ela, sem que Ela sequer saiba o que se passa comigo.
E é assim que me abismo por Ela: todo, por completo.
É outono, e estou abismado.
E enquanto este outono não derriça todas as folhas do mundo e o inverno não chega trazendo novas esperanças, enquanto o infinito não se torna finito, enquanto o amor não passa, enquanto persiste o frio d’alma, enquanto a vida me mantém prisioneiro, enquanto Ela não vem, enquanto isso... que fazer do abismo?