ACADEMIA CACHOEIRENSE DE LETRAS
Crônicas Premiados

Paulo Valença
MENÇÃO HONROSA

A ilusão da saudade

             Adentrou na rua do Jasmim.
             À esquina, o antigo edifício de primeiro andar, com as janelas fechadas, a parede descascada pelo decorrer do tempo. No térreo, o bar-restaurante, de mesas vazias. Ao fundo, o balcão com o sujeito gordo, tristonho.
             Afastou-se devagar, curtindo o reencontro com o passado. O prédio igual. E aquele homem seria um descendente do antigo proprietário, que também era gordo, de fisionomia tristonha? Ah, como saber? Não, melhor prosseguir caminhando.
             Emocionado, olhava as residências conjugadas, de porta e janela, com o terracinho gradeado, ao lado.
             Aparentemente, as construções apresentavam-se iguais, com poucas transformações: talvez a pintura, ou o revestimento com azulejos.
             O sol da tarde iluminava as calçadas estreitas, a rua de pedras escuras, testemunhas de quantos passos, cruzar de quantos veículos? Como tudo passa ligeiro na vida! Parecia-lhe ter sido ontem: rapazinho, caminhando assim, na ida ou volta da firma, que se localizava na casa à direita, mais adiante, bem ao centro dessa rua.
             Um automóvel buzinando, trouxe-o ao presente. Ele soltou um palavrão, e aligeirou-se, enquanto o carro se distanciava veloz.
             Meu Deus: quantas vezes por aqui passou? Naquela época era um adolescente, otimista, idealizador dum futuro no qual ele seria um vencedor. Como imaginar que depois, em sua vivência de trabalhador, sofreria em um mundo cheio de armadilhas, esmagador de sonhos?
             Qual dessas casas era a firma? Em dúvida, inquiria-se, parado defronte as construções. E julgou ter sido na casa à esquerda. Aí analisou-a melhor.
             Porta e janela fechadas. Parte do telhado descoberto, com os caibros aparecendo, enegrecidos pelos anos. Uma parede também quebrada ao meio...
             - Aprontou o desenho?
             A voz de seu Plínio, o patrão, retornando. Os colegas impressores sempre na sala, com a janela aberta, que agora exibia-se com o vidro do basculante partido. E ele cabisbaixo, responsável, trabalhando. Enquanto o sol entrando, banhava parte da prancheta.
             - Quantos anos decorridos?
             Nossa vida é como um filme: cena após cena, e que na velhice, retornam com força. De repente sentiu o desejo. Querendo se conter, apressado, desviou a vista da casa, e retornou a caminhar.
             O sol abrandava-se. Logo, a noite substituiria a tarde.
             No fim da rua, sem mais se prender, então, com a mão trêmula, esfregou os olhos, na tentativa inútil de não desnudar a alma.
             Passando, como se entendesse-o, a mocinha graciosa fugiu o rosto. Discreta. Humana.
             Dobrando a esquina, ele ganhou a rua José de Alencar. Em passos vacilantes, livrava-se da rua de outrora, mas, não das recordações:
             - Apronte este layout para hoje.
             - Sim, seu Plínio.
             O homenzarrão retirava-se. E ele se entregava ao serviço.
             Assim vivendo o que vivera, movia-se na tarde que se escurecia ante a chegada da noite.
             Depois, um dia, ele retornaria ao percurso feito ao encontro dos dias antigos? Seria provável que sim, pois aos velhos, o passado com força, possui a ilusão da saudade.

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