Fica no interior do Estado, fica no interior da gente. Colatina é assim: acolhedora, tranqüila, uma octogenária que aprendeu a cultivar suas manias.
Se lhe entulham o leito do rio com dejetos, lixo e areia, ela os devolve aos cidadãos, de tempos em tempos, com memoráveis enchentes. Quem poderia conter tais ímpetos da natureza? As cidades, meus senhores, são vivas e têm sentimentos...
Colatina e suas vaidades: grandes seios de morros, presilhas de ilhas no colo, xale de rio corrente, jóias douradas de pôr-de-sol, coroa de princesa.
O rápido desenvolvimento marcou sua beleza com diversas estrias: erosão, fumaça, caos no trânsito, buracos. A cidade se desgasta, seus cidadãos reclamam, xingam, fazem passeatas exigindo ordem e ar puro. Colatina ri... mas então? Será que não vêem que são os únicos causadores de toda essa situação? E deixa-os cegos a procurar a solução, que está em cada um. E dá-lhes os bancos da praça, na sombra, para que pensem melhor. E oferece o canto dos pássaros para que se acalmem. Mas eles não conseguem.
Na primeira oportunidade, voltam a perambular irados e a cuspir no chão onde deram os primeiros passos, onde está erigida a casa que habitam, onde se fincam os paus dos poéticos varais secando roupas. A cidade se entristece, é mãe ofendida, meus filhos, meus filhos! ... Todos surdos. E seguem a maltratar, e seguem a sofrer, às vezes a gozar, e olham somente cada um para si mesmo, sem perceber que a cidade se oferece sem cessar – água, terra, alimento, luz, ar, vida. Em troca dão-lhe cimento, vergalhões, vigas, fogo, aço, barulho, fumaça.
A cidade, mesmo ofendida e agonizante, vela seus algozes: aos mendigos e meninos abandonados, a ponte para dormir embaixo, o lixo para buscar comida, o guarda para dar pancada. Aos filhos da fortuna, boas escolas, boa merenda, divertimento, carinho frio e calculado – mas carinho.
Colatina sozinha não pode pôr ordem nas coisas dos homens. As soluções, embora difíceis, existem, nesta terra onde o sol só nasce para os que precisam acordar cedo, mas se põe para todos, diariamente, num espetáculo dourado e radiante de fazer chorar de admiração o mais insensível dos seres. É a Ave-Maria desta nossa mãe, o Ângelus acontecendo no fundo do vale do rio Doce, é o momento em que todos dirigem o olhar para o mesmo lado e se calam, e o coração como que diminui, e então dá uma vontade grande de repensar a vida.
Porém a magia não dura mais que alguns minutos, e a realidade daquele dia a mais que foi trabalhado vem bater na cara de muitos em forma de janta requentada. Da galinha do almoço restam tristes no fundo da panela as asas, os pés, o pescoço, a moela. “Decifra-me e devora-me”, dizem. E, sem vontade, devoramos, mastigando restos de tristeza.
Mas de novo vem a manhã, e já disse alguém que nosso maior demônio é a esperança. Um a um, cada qual se reanima, entra no ônibus, segue seu caminho que passa quase sempre pela ponte, dá bom dia para o rio e sorri ao rever a cidade. Mesmo que depois o humor mude, vale a pena este momento. Vale o clima cálido que Colatina nos sopra no rosto, vale a sensação boa de que este lugar nos quer bem, apesar da nossa indiferença, apesar dos nossos mesquinhos limites humanos.