Final da década de cinqüenta, num domingo, o palco e auditório da ZYL 9, Rádio Cachoeiro de Itapemirim, fervilhavam. Calouros e estrelas como Mariângela Marangoni, José Lopes e Lucineide Moreira (filha do Pedro e irmã de Evandro) se apresentavam no programa comandado por César Misse com as presenças do regional de Mozart Cerqueira e violão de José Nogueira, músicos de tradição no cenário radiofônico local e estadual. Mas, nesse mundo animado e colorido, duas outras figuras se destacavam ali justamente por suas flagrantes diferenças.
Um era o calouro desajeitado, pobre, humilde e reprimido, morador do final de Baiminas, filho de motorista de caminhão, cujo maior estímulo a armar-se da necessária coragem para subir ao palco e cantar (mal) era o cobiçado (para ele) prêmio oferecido pelo César, mesmo aos não classificados: um pote da coalhada Santa Alice deliciosa, fabricada na Safra. Palmas, aplausos, não esperava e dificilmente ocorriam. Afinal, sabia que ninguém era surdo...
O outro menino era bem diferente. Gracioso elegante, classe média-média, filho de joalheiro e morador do centro da cidade, por cima da Estação da Barra, somente assemelhava-se ao outro na idade, mas era um astro e brilhava. Quando chamado com vibração pelo apresentador e recebido com delírio pelo público, subia ao palco com sua muletinha tosca de madeira, olhos brejeiros e vibrantes, porte já majestoso de um príncipe. Ao final do bolero, canção ou balada típicos da década, o auditório vinha abaixo com o entusiasmo e aprovação da platéia cativa. O menino, modestamente e com os gestos até hoje mantidos depois de tanto tempo, agradecia.
Um dia o jovem príncipe sumiu de Cachoeiro e deixou seu público triste e saudoso. O outro menino continuou durante algum tempo na terra querida, ali se tornou homem e continuou cantando nos bares, botecos, parques de diversões e casas de má fama, muitas vezes acompanhado pelo mesmo Zé Nogueira, mas por falta de talento e carisma jamais fez sucesso como cantor, frustração carregada ao longo de toda uma vida. Mas, mesmo assim, continuou buscando seu caminho, sublimou o anseio e seguiu o destino comum da maioria de humanos que é ficar sem brilhar sob os holofotes da fama.
Mas com o outro menino aconteceu diferente. A história (ou lenda, porque é um mito) conta que saiu do pequeno Cachoeiro para morar em Niterói com uma parenta e todo o dia pegava a velha barca da Cantareira para infiltrar-se no vibrante e disputado meio musical do Rio de Janeiro, naqueles programas mais populares como os de Jair de Taumaturgo, César de Alencar, Manoel Barcelos e outros da constelação radiofônica da época. Como e quanto aquele menino do interior capixaba deve ter batalhado e sofrido para romper as barreiras de um mundo tão hostil e vaidoso coalhado de estrelas como Caubi Peixoto, Emilinha Borba, Marlene e Nelson Gonçalves, ainda mais com a deficiência física? Imagina-se!
Mas, de repente, aconteceu. Sua primeira música gravada (uma versão) não foi um estrondoso sucesso nacional, mas seu nome já passou a ser falado no Brasil inteiro e, principalmente, na “capital secreta do mundo”, onde houve um verdadeiro zunzunzun com todos comentando seu apelido. Ainda mais com um sobrenome tradicional e cultuado por todo nativo de Cachoeiro de Itapemirim, apesar de dizerem que não são parentes. Mas é sonoro e forte, quase um símbolo da terra do Itabira.
Daí em diante o nome do menino tornou-se sinônimo de sucesso musical, talvez pela condição impar dentre seus colegas de encantar com sua arte crianças, jovens e idosos; pobres, ricos e remediados; verdadeira unanimidade produzida em Cachoeiro de Itapemirim, legada ao Brasil e parte do mundo. Desde então vem atravessando com sucesso todas as fases e tendências da música popular brasileira e, enquanto muitos desaparecem inexoravelmente como cometas do cenário artístico, ele permanece firme e inabalável estrela de primeira grandeza, desafiando modismos, vencendo como ser humano os reveses existenciais, mas com a presença de um ídolo e, acima de tudo, com a garra do guerreiro forjado na luta para a disputa e a vitória.
Quem admirava o menino e observa-o agora já pai e avô não pode deixar de sentir no seu semblante um certo olhar triste e um quase inescrutável travo de dorida mágoa em algumas canções. Muitos dizem que é conseqüência daquele acidente num trágico sete de setembro, marcando indelevelmente sua existência com uma amargura interior que a fama, o sucesso e a riqueza não conseguem eliminar totalmente. Mas será possível – pensa o outro menino, o ex-calouro do programa do Misse – que todo o talento do ex-príncipe não será suficiente para compensa-lo da perda de um simples membro, acontecimento que talvez o tenha impulsionado à luta de alcançar como verdadeiro herói o panteão da glória?
O nome do menino vitorioso saído de Cachoeiro para o mundo nem é preciso ser dito. Basta dizer que há mais de trinta anos tornou-se o REI, o bem amado de capixabas e brasileiros de todos os quadrantes, ícone da Música Popular Brasileira e, além de tudo, homem de caráter firme, exemplo de perseverança e espelho da doçura, cujas características mais marcantes são o carisma, o antigo sorriso triste e a distribuição de rosas nas apresentações.
Destinos diferentes dos dois meninos, porém com algumas semelhanças. No plano profissional um é REI, com merecimento; o outro obscuro, porém amante, pai e avô como ele, talvez ambos com a mesma sensibilidade para as coisas do espírito. Quiçá com o mesmo amor e veneração a terra onde nasceram e deram os primeiros passos na busca do presente/futuro. E, o segundo, ainda com suficiente lucidez para descrever despretenciosamente a crônica sintética do destino que no passado um dia os fez tão próximos e mais tarde os tornou tão distantes na vida. São coisas de Cachoeiro de Itapemirim, antigas histórias, relembranças, apara em alguns momentos evocar Raul Sampaio e, sozinho, saudoso, solfejar:
Eu passo a vida recordando,
De tudo o quanto ali deixei...