Há 25 anos, morria, no Rio de Janeiro, um dos mais influentes patrocinadores do internacionalmente famoso carnaval carioca. Chamava-se Natalino José do Nascimento, Natal da Portela para os íntimos. Era o mentor do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Portela, do subúrbio de Madureira, estivesse ele ou não na presidência da entidade.
Depois de ler com certa indiferença as manchetes de então, tais como “Camboja não se rende!”, “Jaqueline viúva outra vez”, “Quem vai adotar um bebê importado?” e tantas outras; depois de sofrer com resignação toda sorte de injustiças sociais e discriminações, o tradicional bairro mergulhou de repente no mais completo desespero diante da manchete que jamais desejaria ver: “Morreu Natal da Portela”. E nada foi pior para aquele reino do samba, apesar (ou em razão) da pobreza de sua gente.
Eis o mundo em que vivemos, ou melhor, onde vamos morrendo a cada dia, na avidez desenfreada com que buscamos prolongar a vida. Vitaminas, sais minerais, pílulas rejuvenescedoras, tônicos disso, tônicos daquilo, operações plásticas, romarias a lugares santos... Eis a ânsia humana pela materialidade, tão bem disfarçada em ocasionais demonstrações de afeto.
Nesse tumulto de contradições, controvérsias e incertezas, nasceu também Natalino José do nascimento. Que veio de lar pobre, todos o sabem e proclamam. Que fosse rico, muitos o imaginavam. Mas que gastou quanto ganhou entre a sua gente, poucos acreditavam ou queriam saber..
O que a Filosofia leva, às vezes, séculos para provar, mostra-o facilmente o quotidiano, sem rebuços, sem pesquisas, por si mesmo. Desde a mais remota antiguidade, porém discutem as escolas filosóficas sobre o que mais convém ao homem como criatura de Deus: se viver vida longa, acrisolando o espírito entre os mortais, para depois usufruir bem-aventuranças nos páramos celestiais, ou abreviar, quanto possa, o trânsito terreno, indo logo ao encontro da espiritualidade.
Natal não sabia disso. Não era filósofo, mas, sem estudar Filosofia, tinha a sua filosofia. Não sei se digo bem para expressar que tudo quanto lhe negou o mundo térreo em intelectualidade sobejou-lhe a Providência em grandeza interior, em alma, em vontade de servir e de ser bom, em uma palavra, em esforço para redimir-se, talvez ante si próprio, daqueles pecados que lhe eram atribuídos, tributos da popularidade.
Não sendo propício o momento para indagações de tal ordem, cumpre-me falar do lado positivo da sua vida. Do bem que praticou. Do que distribuiu com a pobreza. Dos gastos inestimáveis com a sua Portela, paixão que lhe consumiu a mocidade e o dinheiro.
Que homem estranho! Não fez cursos de liderança, mas era líder, na melhor acepção do termo, congregando ao redor de si uma comunidade pobre, que o idolatrava. Poderá alguém objetar que foi autocrático, que impôs sempre, que fez prevalecer a sua lei. Que fosse! Mas nem poderia ser de outro modo. Tendo plena consciência do quanto cada qual estaria apto ou disposto a dar-lhe, retribuía a todos segundo o mérito e as intenções de cada um, antecipando-se sempre, para obsequiar ou para magoar, para cortejar ou para atacar, que não esperava o outro dia para conferir.
Era astuto. Moço pobre, teve coragem para enfrentar a vida. Doente, não se intimidou nem esmoreceu. Apenas, mudou de tática e de ramo, mas continuou trabalhando. A seu modo, é verdade.
Diríeis, ainda, que foi contraventor. E realmente foi. Mas quantos neste País não contrariam a lei!... Nem por isso se sabe da prodigalidade de tantos. Ou da perseverança. Ou mesmo da obsessão em ver alguém fora do submundo do analfabetismo.
Natalino era mesmo diferente. Vindo do nada, queria tudo para todos. Não sambando, amava o samba. Não estudando, multiplicava o número de doutores. Sem um braço, com o outro comandava de forma admirável. Fugindo à polícia, punha a polícia atrás de alguns. Negro, os brancos o amavam.
Pela Portela, brigou, chorou, fez tudo... Elevou-a ao ápice da fama internacional.
Mas, triste sorte! Gente de escola de samba não tem biografia. Falo de biografia escrita nos livros pelos homens que sabem medir as virtudes e os defeitos dos outros. Essa Natal certamente não terá, só lhe restando, portanto, para consolo dos amigos e memória da posteridade, a que o próprio povo escreveu espontânea e coletivamente. O deslumbramento do carnaval fascinante que ajudou a criar. O espetáculo inédito dos funerais de rei. O soluço sincero de quem se sentiu apequenado e pobre com a separação. A dor profunda de quem desmaiou. A lágrima furtiva de quem, pensando ser forte, foi ao enterro e não resistiu. A mágoa dos companheiros de noites indormidas, na agonia do resultado incerto. A gratidão dos bacharéis que formou. A indecisão policial ante a magnanimidade do seu coração. O último beijo no estandarte, que não mais verá. O alarido das multidões eletrizadas, quando a Portela explodia na avenida. O coração não poderia mesmo resistir. Parou de cansado, para sempre, oprimido pela tensão das emoções que reprimiu.
Há 25 anos, Natal morreu, meus amigos, e Madureira ficou menor. Menor, porque perdeu a alma e o coração. Menor, porque perdeu o entusiasmo. Menor, porque perdeu o esplendor da vitória almejada. Menor, porque perdeu a esperança de ver-se reabilitada, na eventualidade de uma derrota desoladora. Menor, enfim, porque perdeu a alegria de ser toda de Natal.
Pela Portela, brigou, chorou, fez tudo... até morreu.