Quando, contra a sua vontade, foram comprar o novo guarda-roupa para o quarto do casal, apaixonou-se perdidamente por um armário-de-cozinha, uma verdadeira obra-prima, repleto de portas, compartimentos e prateleiras, o sonho de qualquer um.
Pra que um guarda-roupa novo? Afinal, o dinheiro meio curto e era exagero dela dizer que o antigo era pequeno demais, que não cabia quase nada, que era muito baixinho, muito estreito, muito frágil, muito isso, muito aquilo.
O armário-de-cozinha era uma coisa maravilhosa do jeitinho que ele sempre imaginara, com lugar pra tudo, nada mais de coisas fora de lugar – onde está o azeite? Você viu aquele potinho branco? – de louças espalhadas, de panelas empilhadas, desabando com estardalhaço cada vez que se precisa daquela maior, aquela que está sempre lá embaixo de tudo.
Tentou convencer a mulher de que não necessitavam tanto assim do tal guarda-roupa, de que a cozinha ia ficar igualzinha àquelas das mansões das novelas, mas ela permaneceu irredutível. Queria porque queria um guarda-roupa grande e espaçoso, onde coubessem todos os seus vestidos decotados, todos os seus sapatos e sandálias, todas as roupas íntimas, todos os lençóis perfumados.
Pra ele sobrou a menor parte, não tinha mesmo muita coisa, nunca se viu um homem tão simples, tão sem vaidade.
Cada vez que as panelas batiam, desesperava-se.
Cada vez que olhava o imponente guarda-roupa novo, sangrava.
Virou obsessão. Teria o armário em sua cozinha custasse o que custasse, suasse o que suasse, varando noites e noites em serões, se preciso fosse.
Até conseguir economizar o necessário, renunciaria ao futebolzinho das terças-feiras, às reuniões dos “Amigos da Seresta” das quintas-feiras, ao barzinho das sextas-feiras, a qualquer coisa.
E foram longos meses, suportáveis apenas porque ia sempre à loja admirar o “seu” armário, cada vez mais bonito e desejável, a certeza de que um dia o teria, funcionando como um bálsamo em seu despedaçado coração.
Mal recebeu a nota fiscal e obteve a promessa de que fariam a entrega naquela mesma tarde, correu exultante para casa, louco para dar a notícia à mulher, pouco se importando se deixava o expediente pela metade, se seria repreendido pelo patrão, nada era mais importante do que o sonho, enfim, realizado,
Foi o tempo exato de ver a porta do guarda-roupa se fechando, sorrateiramente.
Talvez tivesse doído menos, não fosse exatamente o “Duplex”- 1,90m de pura massa muscular – desleal zagueirão do arquinimigo time da rua de baixo, famoso por, com bastante freqüência, atingir o adversário em seu ponto mais fraco.