Depois da escola eu às vezes ia para casa do Fabrício e lá brincávamos bastante até chegar a hora de eu ir embora.
Para ser mais preciso, ele morava no segundo andar de um prédio de quatro andares, em um conjunto residencial, um dos primeiros a surgir em Cachoeiro. No meio dos prédios ficava uma pracinha, onde brincávamos na areia grossa, na grama, nas árvores e num terreno com quatro amendoeiras que fazíamos de campo de futebol.
Naquele dia, numa das árvores da praça, a que ficava em frente ao prédio, muitos beijinhos-de-moça brincavam e cantavam contentes, passarinhos minúsculos de bico vermelho, lindos em sua delicadeza.
Nós dois estávamos na janela e os vimos chegar em revoada.
Fabrício, num ímpeto de caçador, correu no quarto e apanhou a sua atiradeira e uma bola de gude, estimulado pelo movimento e estardalhaço dos bichinhos. Colocou com todo jeito a boleba no couro, esticou a borracha e largou o dedo.
Da festa fez-se o silêncio.
Os pássaros assustados, bateram em retirada quase que no mesmo instante. Notamos então que algo havia caído da árvore.
Descemos correndo a escadaria do prédio, atravessamos a rua e o início da praça até chegarmos debaixo da árvore. Aí nos abaixamos para ver de perto o serzinho que permanecera ali: passarinho miúdo, bico de um vermelho intenso, pezinhos contraídos, asas fechadas, olhos cerrados. Morto.
Senti uma pontada no coração, olhei para o meu amigo.
Ele pegou o bichinho nas mãos com todo carinho e chorou sofrido, choro de coração cortado. E, num ato mais que poético, fez o enterro do beijinho e quebrou sua atiradeira.
O tempo foi passando e eu já quase nem sempre me lembrava do fato ocorrido.
Na verdade eu não conseguia matar sequer uma formiga, isto para mim às vezes era motivo de orgulho, às vezes de vergonha. E a molecada sempre me chamava para matar passarinho.
Nunca acertei nenhum, aliás eu mirava só pra errar e espantar o bicho. Quando era alguém bom de mira que se concentrava, eu tentava na hora H assustá-lo com um grito para tentar salvar o passarinho. Às vezes eu conseguia, às vezes me xingavam, às vezes queriam até me bater.
Não me importava de ser chamado de ruim de mira. E até que eu achava a mira muito boa, já que conseguia o que queria, que era não matar o animal.
Num desses dias, paramos perto de um muro. A turma queria matar uma lagartixa que repousava atenta balançando a cabeça. Lá foi o primeiro: Dindão, muito bom de mira. Errou. Era a vez de Cupim. Passou longe. Nem Dudu acertou. Era a minha vez. Mirei, não na lagartixa e soltei a pedra. Mas... Minha mira me traiu. A bichinha caiu como um pacote no chão e agonizava manchada de vermelho.
A molecada fez torcida, afinal era a primeira vez que eu acertava. “Mas eu não queria!” - pensei comigo aflito.
Fui vê-la de perto: “Não, eu não podia ter feito aquilo!”.
- Vai lá, cara! Agora acaba de matar que essa é sua. – disse Dindão me congratulando.
Mirei na cabeça da lagartixa e atirei, sentindo aquele tiro ferir o meu coração.
Depois dei uma desculpa qualquer e fui pra casa.
E lá chorei, lembrando de um certo amigo Fabrício, quase poeta.
E então quebrei a minha atiradeira.