Ontem fiz algo que há muito não fazia. Sentei-me em um banco da praça e fiquei observando os prédios, os carros e as pessoas. Percebi que a correria do dia-a-dia me toldaram os olhos, e quantas coisas belas e interessantes deixei de ver.
Encantei-me com a convivência harmônica da arquitetura moderna dos edifícios com os sobrados de fachada antiga, surpreendi-me com o número de carros que passavam a cada segundo à minha frente... então deixei de observar o concreto e o metal, e passei a observar as pessoas.
Comecei a olhar para as pessoas não como uma carcaça de 504 músculos e 206 ossos; tentei ver seus sentimentos mais íntimos e inescrutáveis, comecei a analisa-las como se estivessem em um divã, frente a um analista; eu.
Vi o rosto cansado de um homem rude, dentro de um ônibus lotado, vi no seu semblante a satisfação de mais um dia vencido e a triste lembrança de que o amanhã será igual ao hoje, os dias só mudam de nome, ou número.
Vi um garotinho diante de uma vitrine vendo seu sonho através de um vidro; vi uma moça com muita vaidade e pouco dinheiro experimentando calçados pelo simples e efêmero prazer de vê-los nos pés; vi um vendedor desolado, ávido por um freguês que lhe garantisse parte do aluguel.
Vi um casal de mãos dadas, pude ver a infidelidade nos olhos daquele homem entediado de um relacionamento monótono. Mais a frente, outro casal, agora de jovens em plena puberdade, andavam fortemente abraçados, ora paravam olhando alguma vitrine ora entravam em alguma loja, mas sempre abraçados; a abrasados. Culpa dos hormônios.
Vi também uma moça feia julgando-se bela, andava de nariz em pé e remexendo os finos quadris, atraindo olhares e comentários irônicos. Vi porém muitas moças bonitas: morenas, loiras, negras, lapidadas à mão, tudo na medida e no lugar certo.
Vi um policial arrogante multando um motorista ingênuo. Nada contra a multa, e sim contra a arrogância. Vi uma ambulância apressada tentando chegar à UTI primeiro que a morte. Quase sempre a morte ganha, o tempo é seu aliado.
De repente ouvi uma buzina; era a minha carona. Entrei no carro, fui para casa e voltei a minha rotina. No dia seguinte, novamente a correria, horário apertado, passos largos, a vida passando rapidamente, e mecanicamente. Bem diferente da vida vista de um banco de praça, carregada de sensibilidade e emoção.