ACADEMIA CACHOEIRENSE DE LETRAS
Crônicas Premiados

Maria Lua
2º LUGAR

O Relógio

             Saiu para comparar um relógio...
             Afinal todos lhe diziam que ter um relógio era necessário... indispensável...
             Andou pela rua mais movimentada da cidade... As pessoas apressadas e meio enlouquecidas esbarravam umas nas outras... olhando a todo instante nos pulsos aqueles objetos que as escravizavam ao Tempo...
             Havia o relógio da matriz com o seu carrilhão, tentando suavizar o passar das horas com a melodia dos anjos... um relógio famoso, não pela música... mas por estar sempre atrasado... Seguir o relógio da matriz significava perder a hora... e, portanto, perder Tempo...
             Havia vários relógios em lojas... barbearias... bares... padarias... bastava olhar um deles para saber a hora... embora marcassem horas diferentes...
             Mas... para que saber a hora? Para que esta ansiedade de controlar o Tempo?
             Quem inventou essa monótona repetição de vinte e quatro horas por dia?
             Ainda procurava um relógio... Sim, precisava dele para... para que mesmo?
             Tinha a seu dispor suave e sereno o relógio da Natureza... Cedinho ouvia o primeiro canto de uma sabiá... sabia então que faltava pouco para o nascer do Sol... em seguida vinham os bem-te-vis...
             Dia afora bastava olhar o Céu... sentir a magia da Natureza... captar as mudanças da temperatura... o Tempo do Universo ia se revelando sem atropelos... sem desesperos... sem desencantos...
             E... de novo a sabiá... seu canto anunciava a chegada da Noite... Sírius, a primeira estrela... mais acima o errante Júpiter... De repente... um Céu todo estrelado... E o fascínio eterno da Lua...
             Haveria no mundo algum relógio que lhe compreendesse a alma viajante e inatingível? Haveria no mundo algum relógio que não limitasse os desejos... os devaneios... os delírios?
             Tempo... O que seria o Tempo? Cedo entendera que podia brincar com ele... que não era um monstro tão terrível assim... que podia ser medido pela inquietude... pela aflição... pela agonia... mas também pela paz... pelo prazer... pelo êxtase... E preferira trilhar o caminho mais agradável... sem sofrimento... o caminho do Tempo de ser feliz...
             Á vida agonizante dos que se deixavam dominar pelo Tempo dos homens... preferira a Vida extasiante dos aventureiros sem rumo... dos navegantes sem remos... das crianças... dos santos... dos loucos... dos poetas... dos que transitavam na Terra seguindo o Tempo da Natureza...
             De repente... entrou numa sorveteria e viu!... Viu um relógio especial... marcava as horas do Tempo dos homens, sim... mas tinha nele o Sol, antes do meio dia... e, de tarde, a Lua e as Estrelas... e, a cada quinze minutos, se ouvia Bach... Um relógio diferente que tentava reinventar a magia do tempo...
             Pensou... Talvez ainda restasse a esperança de que os seres humanos se deixassem tocar pelo mistério... pelo sonho... pela poesia do Tempo... mas de um outro Tempo... o Tempo da Beleza e da Inspiração...
             Continuou seu caminho... viu muitos relógios... muitos rostos ansiosos... muito vazio nos rápidos encontros de rua... Por que as pessoas pareciam sempre interessadas em apressar os momentos? Por que não sabiam desfrutar das surpresas de cada instante? Por que todos pareciam tão desejosos de perpetuar as suas rotinas sem sonho e sem sal? Por que todos fugiam da aventuras... das possibilidades de espantos?
             E decidiu... Não... não compraria nenhum relógio... Continuaria seu destino meio alienado de passante ausente nas ruas da cidade... Continuaria a se orientar pelos pássaros... pelos astros... pelo Sol... pela Lua... E continuaria a ser feliz...
             O Tempo... ah... o Tempo... instantes de contemplação da Natureza... momentos de imaginação e de luz... cumplicidade com a Poesia...
             Voltou para casa... e, sem relógio, desfrutando do Tempo... com Tempo necessário para a Vida... permaneceu na estrada alumbrada das miragens...
             E então o Tempo se fez dócil e luminoso em seu tear de sortilégios...

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