Uma mulher na rua me parou: “Moço, eu podia falar com você um pouquinho?” Eu, sonolento e soturno, mergulhado em meus próprios pesadelos, levantei um pouco os olhos e pensei tratar-se de apenas mais uma, de muitas velhas mendigas, que vez ou outra apareciam do nada pedindo algum, depois de desfiarem as histórias de sua penúria e precisão. Sequer modifiquei o semblante pesado e indiferente ao ouvi-la repetir:
- Eu podia falar com o senhor um pouquinho?
- Eu não tenho grana - disse, mais hostil que pesaroso, resoluto da decisão de não prolongar mais tal conversação. Mas tentei buscar, talvez por culpa cristã, alguma prata perdida no bolso.
Ela tentando atrair a atenção, e já escutando o tilintar das moedas com que pretendia despachá-la, arriscou:
- Não é dinheiro não... É que estou com uma irmã no pronto socorro...
- Toam 50 centavos, interrompi, angustiado pela cobrança íntima de uma intrusa em meio ao peso concreto da avenida.
Ela olhou para a pratinha desapontada, agradeceu e continuou o seu caminho. Dei uns passos e estaquei, engasgado tardiamente com minha atitude, de sequer ouvir a história que uma transeunte, que jamais vira, e talvez jamais voltaria a encontrar, tinha a me dizer. A bobagem que fosse, uma doença inventada, nada poderia ser tão mentiroso e cruel que a atitude arcaica de não responder a alguém que lhe faz uma pergunta, estando totalmente apto e com tempo para isso.
Voltei os olhos e ainda a vi, ladeira abaixo, balançando a cabeça. Notei que não se parecia às outras tantas mulheres pobres que já atravessaram o meu caminho, na mesma avenida. Talvez sequer fosse uma mendiga. Ela descia trôpega e vacilante, buscando onde encontrar aquela alma boa, que poderia quem sabe parar e escutar de bom grado a sua história, mesmo que fosse para depois tirar do bolso uma moeda, mas que terminasse a conversa com um sorriso e um cumprimento de boas idas.
E mesmo que a história daquela mulher fosse falsa, mesmo que se assemelhasse às centenas de histórias falsas com que já esbarrei em minhas andanças, senti-me como um animal, ao negar de pronto, ainda que com todo o tempo disponível, a ouvir outra pessoa. Ainda que fosse para tirar a mesma moeda miserável de 50 centavos do bolso. Mas que pelo menos achasse nos olhos, e atendesse ao seu pedido de atenção. E que redescobrisse nisto todo o prazer do primeiro encontro de duas idas, do encontro livre e inesgotável de duas vidas, pois entre o pedir e o oferecer não pode existir peso ou hierarquia. São faces da mesma moeda, que podem unir ou separar para sempre as vozes do mundo.
Esbofeteei-me, então, como para apagar a minha culpa. Mas era tarde. A mulher já desaparecera na próxima esquina, seguindo com as histórias da sua vida, que, eternamente, me recusei a ouvir.